sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

"CAMÕES Este Meu Duro Génio de Vinganças", de Maria Vitalina Leal de Matos


(Introdução - pág. 11 - 19)
Em 1988…

Em 1988, conheci em Paris um investigador russo, Igor Ivanovitch Bunine.
   Eu tinha chegado a Paris há poucos meses para dirigir o ensino do português em França, e estava numa fase da adaptação. Procurava entrosar‑me no ambiente, conhecer o meio em que vinha trabalhar. Quando soube que haveria uma sessão de fados no Châtelet, decidi ir. E foi aí que conheci o Igor.
   No fim do espectáculo, sentia ‑se um ambiente de euforia. Mais do que a raridade do acontecimento, era o ego lusitano lisonjeado, e toda a emoção da saudade portuguesa.
   A caminho do restaurante, o José Manuel, um antigo aluno e amigo de há muitos anos, leitor em Paris, apresentou‑me o Igor, um estudioso que investigava na Bibliothèque Nationale, numa área com afinidades com matérias camonianas.
  Já no restaurante, em frente das caçarolas de «moules ‑frites», disparou‑me de chofre:
  – Por que motivo é que Camões não publicou a lírica?
  Evoquei a notícia, onde Diogo do Couto, de viagem para Lisboa, conta como encontrara Camões em Moçambique, sem meios para pagar a viagem de volta; conta ainda que ele próprio e os outros amigos que vinham da Índia, se tinham cotizado para lha pagarem. E, no meio desta narrativa, informa por fim que Camões estava a escrever um livro de muita erudição e filosofia, a que chamava o Parnaso. Porém, como acontecera várias vezes ao próprio Couto, o livro foi‑lhe roubado, e por mais que o autor das Décadas, no reino, tivesse investigado, não mais se soubera dele. Parecia desaparecido de vez. Por quem e por que razão – foi um mistério que permaneceu para sempre nos estudos camonianos, e os estudiosos estão convencidos que se tratava de uma compilação da obra lírica. Falámos dos roubos de livros de que o próprio Diogo do Couto fora vítima, dos motivos destes roubos, e de alguma paranóia que poderia ter‑se apoderado do historiador.
  Contudo, não havia motivo para inventar o furto do Parnaso. De qualquer modo, permanece a questão: por que é que Camões, depois da publicação d’ Os Lusíadas, e ainda por cima com o caminho facilitado pelo êxito da epopeia, não tentou reconstituir a lírica? Faltar‑lhe‑iam muitos poemas? Nesse caso, não poderia ter recorrido aos cancioneiros de mão que provavelmente circulavam em Lisboa?
  Foi nesta altura que me começou a falar do manuscrito de Luís Franco Correia, que encontrara por acaso no Fonds Portugais da Bibliothèque Nationale, e que, na sua opinião, não era conhecido. Percorrera uma série de documentos numa área marginal à investigação que estava a fazer – creio que trabalhava na história das relações diplomáticas da Rússia com a França e a Península Ibérica, do séc. xv ao xviii – e deparara com aquele volume em português do séc. xvi, com cartas de natureza diplomática, mas também muitos poemas, e outra documentação que não sabia como entender.
  Luís Franco Correia é uma personalidade de que muito pouco se sabe; a celebridade vem‑lhe de ter compilado um dos mais importantes “cancioneiros de mão” com abundante matéria camoniana, e de – segundo o seu próprio testemunho – ter sido companheiro de Camões na Índia.
  Igor estava convencido de que Luís Franco regressara a Lisboa em 1572 ou 73, onde se teria mantido por algum tempo, até ao momento em que acompanhou D. Francisco de Portugal(1) a França, na qualidade de secretário particular.
  Tratava‑se de um volume não encadernado, ou melhor de uma pasta guardada numa caixa, que continha um conjunto heterogéneo de documentos: um pequeno livro de secretaria; cartas recebidas, algumas das quais assinadas por personalidades de relevo; rascunhos de cartas a enviar, minutas de missivas preparadas, provavelmente ao serviço de D. Francisco; outros papéis e pergaminhos soltos; maços de papelada que pareciam configurar elementos reunidos para memórias, num caso; outro que continha documentos organizados cronologicamente, como se fossem textos para uns anais; um livro de mão, rascunho de um cancioneiro em preparação.
  Igor insistiu neste documento, não só pelo seu volume e coerência, mas ainda pelo facto de conter, à margem dos poemas, notas que poderiam ser uma mina de informações sobre os poetas, as circunstâncias dos textos, etc. Lembro‑me do epigrama sobre um gibão, poema sem grande qualidade, mas curiosíssimo porque tinha à margem um gatafunho de Luís Franco recordando o episódio de mau humor de Camões que estava na sua origem: com falta de roupa, não quisera aceitar o gibão que Luís Franco estava disposto a ceder‑lhe. Como este, havia muitos outros textos, mais interessantes pelas anotações do que pelo conteúdo poético.
  Era uma descoberta fabulosa!
Tenho dificuldade em reconstituir toda a nossa conversa. Lembro a referência a cartas assinadas «Luís»; e outras endereçadas a um destinatário que também se chama Luís. Quanto aos poemas, não identificara nenhum como camoniano. Havendo muitos documentos assinados Luís Franco, deduzira que a pasta pertencera ao compilador do famoso cancioneiro.
  Poderia eu ir ver a referida pasta e dar‑lhe a minha opinião?
  Claro que sim, prometi‑lhe. Tinha o maior interesse! Apenas não iria de imediato porque a fase incipiente do meu trabalho exigia uma dedicação absoluta. Mas daí a um mês ou dois contava encontrar disponibilidade.
  Falámos ainda da personalidade de Luís Franco, sobre o qual não existe praticamente nenhuma informação. Para Igor tratava‑se de um homem culto, que dominava várias línguas, e se desembaraçava nos meios político e cortesão. Notava‑se, por outro lado, o gosto do coleccionador. Não encontrava outro motivo para explicar que materiais tão diferentes tivessem sido conservados juntos, a não ser o gosto de coligir, e um temperamento avesso a destruir papéis.
  Eu estava sinceramente curiosa. Mas o trabalho na Coordenação do Ensino não me dava tréguas, e todos os dias surgiam novas dificuldades. O ensino do Português em França tinha inúmeros meandros. Entre a rotina diária no escritório, as idas à embaixada, as visitas às associações, alguma vida social obrigatória, os sindicatos, as reuniões com os responsáveis das diversas regiões, deslocações em França e vindas a Lisboa, o meu quotidiano estava cheio como um ovo.
  Falei mais algumas vezes com Igor, pelo telefone, e combinámos um encontro de trabalho, a que outros se sucederam, no Café de Cluny que ficava na esquina do Bd. Saint Germain com o Bd. Saint Michel: ele trazia fotocópias, e líamos, interpretávamos, discutíamos. Vimos cartas, poemas interessantes pelas tais notas à margem; e um outro tipo de documento curiosíssimo: folhas de notas feitas com objectivos que nos escapavam – eram estas que continham abundantes referências a Camões: pequenos apontamentos que pareciam resumir conversas; esboços de projectos; uma lista de sub géneros líricos que sugeria um plano de edição; breves referências a circunstâncias biográficas, umas conhecidas, outras não; notas soltas que pareciam feitas para apresentar a obra, como se se tratasse de um rascunho de prefácio para uma publicação…
  Nalguns destes apontamentos eram referidas outras personalidades – umas pelo nome próprio (Jorge, André…), outras por abreviaturas, ou apenas por uma inicial – personalidades que tinham com Camões as relações mais diversas. As mais frequentes designavam, na nossa opinião, figuras contemporâneas que teriam convívio comum com o poeta, e que convergiam em torno de questões recorrentes: o projecto de publicação da lírica, uma nova edição d’ Os Lusíadas; e um aceso debate em torno da campanha de África e do futuro de Portugal. Julgámos identificar algumas dessas pessoas: Jorge Ferreira de Vasconcelos, o Padre Manuel Correia, o poeta André Falcão de Resende; ao mesmo nível, encontrava ‑se um desconhecido, Frei Bernardo.
  Outras, menos frequentes, também se identificavam bem: poetas contemporâneos, como Andrade Caminha, Diogo Bernardes, Jerónimo Corte‑Real… Camões – Este Meu Duro Génio de Vinganças 15 pessoas com cargos de relevo na Corte, como o Dr. Gonçalves da Câmara, alguns dos validos do rei; fidalgos conhecidos, como D. Luís de Ataíde, D. João de Lencastre, vários membros da casa de Vimioso, principalmente D. Manuel de Portugal; o impressor António Gonçalves; e vários amigos de Camões, como
Vasco de Ataíde e João Lopes Leitão.
  Mais difíceis de reconhecer eram personalidades apenas referidas por inicial: D. F. e D. F. A. aparecia diversas vezes, em contextos que permite deduzir tratar‑se de pessoa de relevo e ter favorecido pretensões do poeta; mas também estar na origem de um grande drama. Outras, como L At., Fr Pg., Gr., M. C. não beneficiavam de contextos tão nítidos.
  Estes apontamentos eram um manancial: às vezes não passavam de rabiscos quase ilegíveis; exigiam um esforço de investigação para identificar mensagem, referências pessoais, e acontecimentos, estes quando era possível situá‑los relativamente a circunstâncias históricas conhecidas. Mas naquela época era‑me impossível fazer essa investigação; só o Igor dispunha dos elementos de pesquisa que nem sempre manejava com à vontade.
  Esta colaboração manteve‑se até ao Verão de 1989.
  Depois de férias, não voltei a encontrar o Igor. Pedi notícias ao José Manuel: o Igor não estava em Paris. O telefone não respondia.
  Encontrei por fim ocasião para ir à Bibliothèque Nationale, e comecei buscas com os elementos de que dispunha, mas, desgraçadamente, não tinha a cota do volume em questão.
  Voltei várias vezes e investiguei por diversas formas – através dos catálogos e com a ajuda de uma bibliotecária – em vão. Não consegui encontrar o manuscrito. Aliás, lembrava‑me, o Igor dera com ele por acaso, o que fazia supor que era incorrecta a classificação implícita na cota.
  Em Novembro, recebi um postal do Igor, eufórico, festejando a queda do Muro de Berlim.
  Tudo tinha começado a mudar na União Soviética com a Glasnost de Gorbachev. Faláramos disso algumas vezes, nos colóquios do Café de Cluny. Mas Igor era céptico, reticente…
  Agora, de chofre, aquilo que estava para lá de toda a imaginação acontecia a um ritmo surpreendente.
  Em casa, assistia aos noticiários sem acreditar no que via: eram as filas de
carros, vindos dos países de Leste, autorizados a atravessar as fronteiras. Como explicar aquela abertura?
  E, de repente, Berlim! O muro que dividira o mundo era demolido sob os nossos olhos atónitos em face das imagens da televisão. Euforia, festejos, uma espécie de carnaval que alastrava e cujas consequências estávamos longe de prever. A história parecia começar de novo, julgávamos ver nascer uma era de paz.
  Não estranhei o postal do Igor e gostaria de lhe ter respondido a congratular‑me. Mas não tinha endereço.
  Foi o último contacto com ele. Não deu mais sinal de vida.
  Aquilo que fora apenas uma maçada, ter de esperar que o Igor chegasse para me dar a cota do manuscrito, tornou‑se um problema a resolver sozinha e por todos os meios. Perguntei ao José Manuel qual era o tema principal que o Igor investigava. Também não sabia. Conhecera ‑o superficialmente e percebera que eu podia ser‑lhe útil e que gostaria de o conhecer. Tinham‑se encontrado no âmbito do ensino de línguas estrangeiras. Aliás, o Igor nunca fora leitor. Ensinara russo no ENA como «free‑lancer», para ganhar uns tostões.
  Na biblioteca as minhas buscas revelaram‑se infrutíferas, e as ocasiões de aí me deslocar eram cada vez mais escassas. Tinha decidido implementar mudanças no ensino do português e estava assoberbada com trabalho. A reforma desencadeara grandes protestos, o que me obrigava a deslocações frequentes às diversas áreas consulares, por toda a França. E em Paris as dificuldades absorviam‑me.
  Quando pensava no manuscrito de L. Franco Correia ia‑me resignando a vê‑lo como um projecto adiado sine die. Quando terminasse a comissão de serviço e regressasse à faculdade…
  Voltei para Lisboa em Dezembro de 1990. Mil novecentos e noventa e um foi um ano complicado, sob diversos pontos de vista. Além disso, dei‑me conta de que não é em vão que se está três anos afastada das matérias que se ensina. Tinha de me preparar seriamente para a docência no ano seguinte. O quotidiano apoderou‑se de mim e preencheu‑me o tempo.
  Entretanto, ocorreu a mudança da Bibliothèque Nationale para o novo edifício. E aí o projecto adiado transformou‑se numa miragem sem realização possível.
  Visitei a nova Biblioteca deslumbrada com o arrojo arquitectónico, mas impressionada com a confusão que o processo da mudança tinha ocasionado. Não voltei lá desde 2001. E perdi de vez a esperança de reencontrar o manuscrito de Luís Franco Correia.
  Agora, extraviado este manuscrito (tal como Os Lusíadas poderiam ter desaparecido no naufrágio, e como desapareceu o Parnaso, precioso manuscrito, definitiva ou provisoriamente) que me resta senão evocar a situação espiritual de que guardei uma impressão profunda, e as circunstâncias biográficas que
retive na memória?
  Os documentos continham informações relacionadas com factos, datas, acontecimentos, pessoas… Tudo isso deveria ter sido investigado.
  Na sua ausência, resta‑me apenas uma impressão, em muitos casos desfocada. Datas há que posso estabelecer, graças aos acontecimentos históricos – da história política ou da pequena história – com que se relacionam.
  Mas o concreto do rascunho de uma escritura, da minuta de uma carta ou o seu original, os apontamentos dificilmente decifráveis que aludiam em breves palavras a encontros, a conversas e que teriam eventualmente destinos muito diferentes (talvez o prefácio das líricas; talvez notas para uma memória com finalidades que me escapam, talvez mesmo uma biografia do poeta, quem sabe…) tudo isso se perdeu para sempre; e apenas guardo alguns apontamentos que, na altura, tomei, sem rigor nem método, certa como estava de que teria sempre ao meu dispor este manancial.
  Dele fica‑me a lembrança do clima psicológico, de algumas esperanças que o poeta ainda acalentava, do enlevo dos afectos, da amargura com que via o presente, num amálgama confuso de recordações (a minha memória é mais afectiva do que factual, infelizmente).

  Mas ao mexer nas relíquias que dele me ficaram – fotocópias e notas por mim redigidas – aquelas peças soltas e tudo o que guardei na memória foi começando a fazer sentido, como um «puzzle» incompleto, cujas peças, apesar de não preencherem todos os vazios, permitem entrever a configuração principal.
  Passei a olhar estes restos como ponto de partida para investigações biográficas.
  Todo o meu percurso universitário camoniano visara sobretudo o estudo dos textos, a compreensão da obra, e sempre dei pouca atenção às circunstâncias biográficas. Só no meu último livro sobre Os Lusíadas aprofundei um pouco esta matéria, que cinquenta anos de estruturalismo (e, já antes, o cansaço com o historicismo nem sempre inteligente e escrupuloso) tinham atirado para o limbo das insignificâncias e dos equívocos dos estudos literários.
  Assim, depois de um caminho que vai da estilística à semiótica, rendo‑me por fim àquilo por onde antigamente se começava: a erudição. Agora são os dados do contexto – uma coincidência de datas, a inviabilidade de uma interpretação porque os factos a desmentem, etc.— que adquirem interesse porque
podem confirmar ou infirmar as hipóteses que vou formulando.
  Tanto quanto as datações existentes e as referências a acontecimentos históricos permitem deduzir, os documentos examinados circunscrevem‑se aos anos que vão de 1573 a 1577.
  Todos os indícios referentes a estes quatro anos se tornam preciosos: por exemplo, a exploração sistemática dos poemas circunstanciais que Camões escreveu, uma vez que uma boa parte deles se pode situar nesta época: a ode enviada a Dom Leonis Pereira para recomendar a publicação do livro de Magalhães Gândavo, sobre o descobrimento da Terra de Santa Cruz; a que dedicou ao seu mecenas, D. Manuel de Portugal, «A quem darão de Pindo as moradoras»2, as oitavas endereçadas a D. Sebastião sobre a seta que o Papa lhe enviou, em 1574, etc.

  O livro que se segue corresponde ao esforço de reconstituição – mais ou menos fundamentado – daquilo que a minha memória, as relíquias das conversas com Igor, o conhecimento da obra e todo um longo trabalho de erudição puderam restabelecer.

1. D. Francisco de Portugal (3.º Conde do Vimioso) partiu para França (Tours e Paris) depois da batalha de Alcácer Quibir, da qual foi um dos primeiros resgatados. E morreu em 1582. Quatro anos medeiam entre 78 e 82. Em Tours, D. Francisco tornou‑se notável. Conta ‑se que a rainha de Inglaterra o quis conhecer pela fama de cortesão brilhante e culto que granjeara.

2. D. Manuel de Portugal deve de algum modo ter tido uma relação mecenática com Camões.

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